Stardust
Até hoje o Neil Gaiman não me decepcionou com qualquer história que tenha contado. Estou esperando pelo filme ansiosamente e pretendo assisti-lo, o que por si só já é um evento nada comum. ![]()
White City
Pregados num pedaço de madeira
Suponho que é assim que Garth Jennings e Nick Goldsmith têm se sentido nos últimos tempos, desde o lançamento de O Guia do Mochileiro das Galáxias, e com certeza alguns fãs aqui do Brasil, com o lançamento anexado ao “bolão” de Maio/Junho que trará ainda Sin City e Batman Begins. Não sei sobre esses últimos dois, mas O Guia foi mais ou menos como eu imaginava.Como exatamente? Não foi perfeito, não foi fiel, mas foi engraçado e o visual deu o charme que falta a Vogons como eu, que não possuem qualquer tipo de idéias próprias. A Coração de Ouro em si, e as diversas transformações, trouxeram a mim um novo nível de compreensão do tipo de conceito visual que Adams tinha ao escrever seu livro.Mas vou analizar o mais minuciosamente que minha memória pequena consegue se lembrar de uma só exibição do filme.
Vou começar pelo fato mais preocupante para todos os fãs brasileiros: narração by José Wilker. FICOU BOA! Nem adianta reclamar, ficou mesmo. O conceito por trás disso é simples: piadas inglesas são totalmente dependentes da ênfase nas frases corretas. Um dos exemplos está bem no início do terceiro livro, onde Wowbagger, o Infinitamente Prolongado aparece para insultar Arthur. Ao explicar como Wowbagger virou imortal, Adams explica que foi tudo um acidente com um acelerador irracional de partículas, duas tiras elásticas e um almoço líquido (um exemplo sem o acelerador). O truque é falar isso da maneira mais sóbria possível, apenas alternando a ênfase. O desempenho do Wilker na última novela das oito em que participou é mais do que prova de que ele era capaz. Se precisar de mais alguma, dê uma olhada na cena da cachalote, veja tudo que foi perdido nas legendas.
Passemos para os atores: Sam Rockwell fez um papel muito bom, mas deixa de ser excelente por conta de uma pequena falha: Zaphod não é completamente idiota. Ele é egocêntrico, sim. A cena do seqüestro da Coração de Ouro está resumida de maneira decente, sim. Mas o fator cômico de ter duas cabeças e uma estar sempre com um ar de desdém enquanto a outra fala com os outros tripulantes é algo que foi perdido.
Zooey Deschanel é bonitinha. E é isso. Sinceramente, não tem muito a ver com a Trillian do livro, muito por que seu par romântico, Martin Freeman, tem a expressividade de um vogon. Não me espantaria de ouví-lo declamar: “Ó fragúndio bugalhostro…” dado o fato que ele nem ao menos se mexeu ou fez qualquer face de espanto. O Arthur do filme deve ser grande fã de Paula Nancy Millstone Jennings…
O que salva tudo (para os seres baseados em carbono) é o Mos Def, que começa a ter espasmos musculares violentos. Aliás, parece ser o único que consegue ir do nível A ao nível Z em reações. Os dois terráqueos parecem não passar do D ao F, enquanto Zaphod está sempre em um quase-irritante nível Z.
O que salva o filme inteiro é o nosso querido Marvin, o Andróide Paranóide. A presença dele no livro já é importantíssima. No filme, a sua mera presença no cenário já é esperança de gargalhadas.
Estava lendo a Valinor ontem quando voltei do cinema e me deparei com uma mensagem de uma pessoa que falava que havia achado meio estranho, que precisaria ver o filme novamente para descobrir o que há de errado. Na minha opinião, o que tem de errado é bem simples. Aliás, está no livro:
Página 13: E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. (…)
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.
Essa não é a história dessa garota.
Na verdade, ela entra novamente na história na página 157-8. “Eques Slartibartfast”:
- Terráqueo, o planeta em que você vivia foi encomendado, pago e governado pelos ratos. Ele foi destruído cinco minutos antes de servir aos propósitos para o qual foi construído (…)
No filme falta exatamente isso: os pontos de nexo que fazem nenhum sentido quando são mencionados pela primeira vez, mas que de repente aparecem velados mais tarde no livro. O filme não tem nada disso. A destruição da casa de Arthur é praticamente banal, assim como a destruição da Terra, e tudo acontece tão rápido que se perde a ironia do fato de que ambas estão sendo destruídas pelo mesmo motivo estúpido, apenas em escalas diferentes. Embora a casa no meio do nada de Arthur é ilustração suficiente da desnecessariedade da demolição.
Na verdade, essas citações nos remetem a um problema muito conhecido de filmes que não levam crédito de seus produtores: é muito curto, dando a impressão de que, se a Buena Vista tivesse corroborado a dar cinco minutos a mais de filme, poderíamos ter o Sr. L. Prosser descendente de Genghis Khan, Veet Voojagig motorista para uma família de esferográficas verdes baratas, ou a explicação de por que a toalha é um dos ítens mais úteis do Universo.
Para finalizar então, o que quero dizer é que o filme é bom. As únicas partes que enfraquecem são as modificações no roteiro, a falta de expressividade geral de Martin Freeman, a falta de expressividade no início do filme da Zooey Deschanel e a falta de nexo entre coisas aparentemente sem nexo, marca registrada dos livros de Douglas Adams. E, é claro, o filme é curto demais (assim como o livro, exceto que no caso do filme isso prejudicou).