02.07.09

Sobre o excesso de opiniões

Enviado em Devaneios tagged , , , , , , às 10:20 pm por Rodrigo Jaroszewski

Hoje fiquei sabendo que a Anica fechou seu blog, o Hellfire. O motivo, diz ela no Twitter, é uma certa futilidade inerente à atividade: por que dar opinião se tantas pessoas já as dão? Para responder a essa questão, vou falar de três pessoas.

Como?

A primeira é Lawrence Lessig, professor de direito de Stanford, que fundou a Creative Commons. Lessig, na sua palestra na TED em 2007, diz como a nossa sociedade passou de criadora de conteúdo para consumidora apenas no século XX. Antes das “máquinas falantes” das quais falou John Philip Sousa, as canções que faziam sucesso eram cantadas pelos jovens nas soleiras das casas, todos juntos, compartilhando o momento da criação de novas canções. O medo de Sousa era de que ficássemos, no futuro, fisicamente mudos por conta das “máquinas falantes”, por falta de uso das cordas vocais. Ele estava errado apenas na natureza da mudez.

Por quê?

A segunda pessoa que eu quero citar é Jason Calacanis, criador da Silicon Alley Insider, Weblogs Inc. e Mahalo. Sendo um dos primeiros blogueiros no mundo, ele explicou no episódio de 20 de dezembro de 2008 do Gillmor Gang que “a blogagem começou porque havia pessoas inteligentes cujas vozes não estavam sendo ouvidas e que tinham algo a dizer que era profundamente diferente daquelas sendo ditas pela mídia mainstream, e — muito mais importante — criou um belo contrapeso: o New York Times escrevia algo e então Dave Winer escreveria algo” durante a explosão da “bolha .com” em 2001. Muitas mentes brilhantes ficaram sem emprego na época, e por consequência sem voz. Michael Arrington — dono do blog TechCrunch e listado como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2008 — criou seu blog quando estava sem emprego naquela época.

Isto me remete de volta a Lessig. Segundo a palestra supracitada, o século XXI está revertendo o estrago cultural do século anterior. Estamos deixando de ser uma sociedade em modo “somente leitura” e nos tornamos uma de “leitura e escrita”, usando um jargão de computação.

Onde?

A terceira pessoa de quem eu gostaria de falar é Seth Godin, marketeiro, empreendedor, escritor e blogueiro. Em seu livro “The Dip”, ele argumenta mostrando alguns dados como é importante ser o melhor do mundo no que você faz, pois a diferença em retorno (nos seus exemplos, monetário) entre o 1º e o 2º colocados é muito maior do que o esperado pela lógica convencional. Isso é ilustrado pela pergunta que ele fez a Loic Le Meur: se você tem a opção de comprar entre 5 marcas do mesmo produto por U$ 2.000, você compraria da melhor marca ou de uma que não é tão boa?

Contudo, Godin é muito explícito em lembrar que “o melhor do mundo” significa “o melhor do seu mundo”. Esse “mundo” é a sua esfera imediata de influência, não necessariamente os 7 bilhões de seres humanos da Terra.

O que isso tudo significa?

Lessig disse como deixamos de ser criadores de conteúdo. Calacanis disse por quê voltamos a ser criadores de conteúdo. Godin nos mostra onde devemos criar conteúdo.

Nossa sociedade foi, ao longo dos anos, perdendo sua capacidade de ser ouvida, ficando nas mãos de quem tinha o dinheiro para arcar com os equipamentos. O custo de imprensas, estações de rádio e de televisão é alto, mas uma vez que essas instalações eram montadas, elas podiam se dar ao luxo de publicar ou transmitir só as ideias de quem eles quisessem. O que não era lucrativo não era publicado ou transmitido.

Hoje o preço para disseminar idéias para todo mundo é quase zero. Este blog é gratuito, já a conexão e o equipamento são cada vez mais baratos. Podcasts hoje também são gratuitos. Para produzir um vídeo em 1080p (HDTV) com a câmera sensação do momento, a Canon EOS 5D Mark II Digital SLR, é só pagar U$ 2.699. Note que estamos falando da máquina topo de linha da Canon, o que significa que você pode comprá-la daqui a uns anos por U$ 1.000.

Em dois anos só gastaremos U$ 1.000 para filmar em HDTV. Isto não lhe deixa boquiaberto também?

O ponto

O ponto a que eu quero chegar é o seguinte: se uma pessoa se encontrar na mesma situação da Anica, seria bom que essa pessoa avaliasse a sua posição em seu “mundo”, ou como Godin colocou melhor em seu novo livro, a sua posição dentro de sua tribo. A opinião da Anica é bem óbvia, mas a minha é bem diferente: ela está bem longe de ser só mais um grão de areia na beira do mar. Dentro da minha tribo ela tem legitimidade, confiabilidade e importância bem acima da média, talvez a melhor blogueira dos assuntos que ela cobre/cobria.

Eu posso dizer que eu sinto um pouco do que ela sente, e do que muita gente deve sentir. Na minha tribo ninguém descobriu Larry Lessig, Jason Calacanis ou Seth Godin antes de mim. Ninguém tropeçou no Cel. John Boyd. Ninguém me falou sobre Peter Drucker. Mas eu não escrevo nada que alguém já não tenha escrito sobre eles ou que não tenha sido escrito por eles, o que me faz sentir que eu faço um trabalho medíocre como blogueiro. Mas de vez em quando eu me lembro desses fatos, e isto me deixa um pouco mais tranquilo: eu sei que eu sou o melhor do mundo, o melhor do meu mundo, da minha tribo, quando o assunto é Lessig, Calacanis, Godin, Boyd ou Drucker. E se eu não fizer a ligação entre as tribos deles e a minha tribo, dificilmente alguém mais a fará.

Este é o espírito da cantoria nas soleiras.

5 Comentários »

  1. wlzilio disse,

    definitivamente tu é o melhor que escreve sobre esses caras. até porque só ouvi falar de um ou dois, então sempre bom ter alguém que os conheça hahah

  2. Anica disse,

    Ok, primeiro: obrigada, obrigada, obrigada. Fiquei realmente lisonjeada. Você sabe, todo nerd adora receber elogios das pessoas que admira e eu não sou excessão. ;D

    Sobre a questão que fez com que eu resolvesse parar o Hellfire: antes filmes, séries e livros eram encontrados de forma um pouco mais complicada. E eu achava que estava fazendo algo útil quando falava de algo mais obscuro, mas ainda assim no universo pop, ou quando conseguia conferir um lançamento antes de chegar no Brasil. Ficava feliz de verdade quando alguém chegava e dizia “Li aquele livro que você indicou no Hellfire, é muito bom mesmo!” e coisas do tipo.

    Mas agora chegou num ponto em que não sinto como que trazendo algo de fato novo. Minhas opiniões são só minhas, eu sei – e isso seria por si só a novidade. Mas eu não sei mais se há de fato um público para isso. O que eu tenho visto na tal da “blogosfera” atualmente é uma avalanche daqueles blogs que agregam conteúdo que está rolando na internet, seja um video engraçado ou links para os novos sites engraçadinhos do momento.

    Aí eu fico pensando: tanta gente lendo posts de um parágrafo só, ou ainda, vendo só um video ou uma imagem – será que as pessoas estão lendo de fato o que escrevo? Você escreve bastante também e deve entender o que quero dizer sobre isso: dependendo de alguns comentários, fica óbvio que o sujeito leu o título, a primeira frase e buenas (eu falei disso uma vez no hellfire, aqui -> http://www.anica.com.br/2008/06/16/aquele-abraco/ )

    Se for para ficar só nisso, não é preciso mais do que um twitter, certo?

  3. Anica disse,

    Há, há. Paro de escrever no Hellfire e aí fico toda prolixa na caixa de comentário dos outros hehehe

  4. Fique a vontade para ser tão prolixa quanto quiser por aqui. :)

    Acredite, eu sei melhor do que ninguém o que é falar pras paredes. Se eu cortar a página de nomes élficos do meu site eu teria menos de 20 visitas por dia. Mas o tamanho da minha tribo é de responsabilidade minha: eu escolhi que as pessoas que querem só os nomes em élfico não façam parte da minha tribo, eu escolhi que elas sejam indesejáveis para mim e eu escolhi escrever de uma forma que não interessa a elas. Como diria a Solange de muitos BBBs atrás, “o pobrema é meu”.

    Chegar à conclusão de que você não será nunca a melhor do seu mundo sobre o que você escreve no Hellfire é um bom motivo para parar, assim como chegar à conclusão de que escrever no Hellfire lhe impedirá de ser a melhor do seu mundo em outra atividade, ou está lhe tirando a atenção de uma atividade na qual você já é a melhor do mundo.

    Contudo, eu não creio que o fato de não estar sendo lida com atenção por tantas pessoas quanto você gostaria é motivo para não escrever. De fato, é a pior coisa a se fazer! Deixar de escrever não deixará sua tribo maior, o que lhe levará a nunca mais escrever e, portanto, a nunca mais dizer o que você acha que as pessoas deveriam ouvir. O equilíbrio se perde sem esse contrapeso.

  5. [...] achando que não valia mais a pena essa coisa de blog, e aí o Rodrigo (aka Slicer) escreveu um post falando basicamente da importância dos blogs, e aí eu até achei que tinha argumentos para continuar batendo o pé e não, não, não chega de [...]


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