Cortando a Película

“Schadenfreude” explica

Enviado em Veríssimo by Rodrigo Jaroszewski em Agosto 4th, 2005

Deve haver uma grande palavra em alemão que signifique “há uma grande palavra em alemão para tudo”. Por exemplo: não existe em outra língua - talvez por pudor - um equivalente ao alemão “Schadenfreude”, que quer dizer sentimento de prazer com a desgraça dos outros. Uma versão brasileira da palavra está fazendo falta na cobertura desta crise. Desde que surgiram as primeiras revelações da lambança em que o PT se meteu, um “Schadenfreude” generalizado tomou conta do país. O PT não está pagando só pelo que fez, está pagando pelo que era, ou dizia que era, e o tamanho e a alegria do “Schadenfreude” à sua volta são proporcionais à sua antiga pretensão à superioridade moral. Mas também se festeja a desgraça do PT como uma derrocada terminal da esquerda, da qual não sobraria vestígio depois de tudo isto acabado. É o “Schadenfreude” ideológico. Deve haver outra palavra em alemão, ainda maior, para isto.

“Schadenfreude” com “Schadenfreude” se paga. Como alguns respingos da lambança têm atingido outros partidos e outros governos, fica-se na espera para comemorar cada nova prova de que o PT não foi bandido sozinho e que o esquemão vem de longe. Mas é uma batalha de “Schadenfreudes” desigual. Governistas acuados não estão com ânimo para festejar o que quer que seja e o clima reinante na nação é o de arrasa-PT. As teorias conspiratórias ficam cada vez mais débeis, embora eu ainda defenda minha favorita, a de que se trata de um golpe de radicais do próprio PT que querem derrubar Lula e Palocci e colocar José Alencar na Presidência. (Finalmente um governo de esquerda!) E a idéia de uma conspiração conservadora peca por inconsistência semântica. “Conspiração” que dizer movimento à margem da normalidade contra um poder estabelecido. Como a normalidade é hoje o que sempre foi, a direita com o poder não importa quem esteja no palácio, conspiração conservadora é um oxímoro, minha outra palavra difícil do mês.

Quando o Fernando Henrique disse que seu governo agora pertencia à História e portanto não cabia investigá-lo, estava falando da História como um refúgio, com blindagem permanente contra ameaças retroativas. Com toda a razão. A comparação da história do Brasil com uma espécie de asilo para o patriciado, à prova de remorsos, é irretocável. Assim tem sido desde o primeiro Pedro (o Álvares Cabral).

Como não é do patriciado, Lula não terá direito ao conforto do esquecimento, quando também virar história.

Nosso consolo é que não deve existir uma palavra em alemão mais expressiva, para tudo isto que está acontecendo, do que “lambança”.

Luís Fernando Veríssimo, 04/08/2005 (Zero Hora)

Noite bizarra

Enviado em Devaneios by Rodrigo Jaroszewski em Agosto 1st, 2005

Sair de uma reunião onde só apareceram três pessoas (eu incluso), achar um conhecido no ônibus, descobrir que existe uma festa chamada “Orgasmo”, se auto-convidar para essa festa, caminhar mais que um beduíno, beber em um lugar apelidado de “Boteco Mágico”, caminhar ainda mais, caminhar mais ainda, ver pessoas se chapando ao som de The Cure, caminhar ainda mais, gastar 15 reais para entrar na festa, não conhecer ninguém lá dentro, ficar cuidando de uma menina bêbada que nem se lembrava de onde morava e que eu nem conhecia, abrir caminho pelo lugar para encontrar meu amigo que ela queria encontrar para levar ela pra casa, sair do lugar e não poder mais voltar, passar o resto da noite com uma bolha no pé, as coxas assadas, podre de cansado e pegar um vento frio depois de um dia que a temperatura não baixava de 30 graus.

Foi com certeza um dos dias mais produtivos da minha vida, e não estou sendo irônico. Todo mundo deveria passar por um dia desses. O problema é o resfriado que eu peguei.